terça-feira, 31 de agosto de 2010

O pássaro preto

Meu querido W,

Tinha prometido não contar pra ninguém. Mesmo eu custo a acreditar que isso tenha acontecido... Cinco minutos de eternidade, talvez menos, antes do alarme do teu celular: "Tenho que buscar a minha filha". Não me surpreendo: a família está sempre com a gente... Numa família italiana, então, ela é você. Sempre. A qualquer momento. Não importa se você está na reunião com o CEO daquele contencioso milionário, intubando a traquéia numa hemorragia digestiva de um hepatopata vírus C ou na cama com seu amante.
E a gente estava. Terno ou poderoso, você fodia com tudo, e nessa hora concentrada, te pedi um beijo, que vc recusou. Moleca, resolvi roubar mesmo assim tua boca, teu queixo, teus mamilos, enfim, o que permitia minha força de supino com 20 Kg... Vc gozou logo depois, talvez com receio da minha próxima rebeldia. Teu corpo ficou inerte por um tempo, a respiração profunda e o prazer agonizando. Então aconteceu ou foi acontecendo. Te abracei, vc me puxou, aconchegou meu peito no teu, senti tua mão alisando os cabelos da minha nuca, envolvi com minhas coxas a tua, vertendo mel pro teu dragão tatuado... Coração arrepiado, eu menina disparava as escadas pro quintal da infância, pra ver o pássaro preto do meu avô, que ele alisava do mesmo jeito "Ô pêto!". O alarme tocou, engaiolei o choro, achei que vc não ia entender essa mulher que enquanto trepa perdoa o avô paisá...
Ou ia entender?
Se assim for, que vc venha. João subindo no pé-de-feijão mágico... Se assim não for, a história contada sai do sobrenatural e entra no ciclo das coisas mundanas, que nascem-crescem-morrem. Desço, deixo o pé de feijão e fico com a mágica...

Bj, liebling, te adoro




Undisclosed recipient

Pros meus queridos
Pra minha irmã (de nascença)
Pros meus irmãos (de parescença)
Pra quem pediu (mas não pagou pra ver)
Pra quem tudo é "foda-se!"
Pra quem vestiu a luva ou calçou a chuteira
Pros cínicos esperançados
E pros amigos recuperados

nesse bilhete
escrevi em ramalhete (cuidado!)
de toda rosa
se canta um falsete

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

domingo, 29 de agosto de 2010

A sereia enfadada

a sereia cansou
da modalidade de jogar
homem ao mar
(sempre sobroçava
nesse abraço infinito)
e disse, com dor de ouvido
meu querido, não te olvides mais
és livre para o tubarão te pegar

terça-feira, 24 de agosto de 2010

Laranja caixinha de suco

como combinar
verde Ibira azul seleção brasileira cinza asfalto amarelo Patek Philippe roubado vermelho batom rosa goiaba úmida púrpura purpurina carnaval e festejar:
arco íris te beijar

segunda-feira, 23 de agosto de 2010

O céu daquele dia

Meu querido W,

Escrever não é difícil. Ou é. Depende de como vc toma decisões. Por necessidade. Ou por vontade.
Às vezes o narrador tem de ser preciso, aí solto um "vestia uma camiseta azul celeste". Em outras ocasiões quero provocar a imaginação (do leitor)... aí mando um "uma camisa da cor do céu daquele dia".
Como estava o seu céu naquele dia, W Gray?

Naquele dia o céu era pra mim púrpura, assim como tua língua que encontrava a minha pela primeira vez. O pain au chocolat descia macio, doce deslizar do meu peito no teu. E eu voava sobre teu corpo trepado no meu, seguro, dez andares erguidos de cimento e areia do mar, vaga a nos tragar, bem ali, no canto da sala do meu estar

Bj, te adoro

domingo, 22 de agosto de 2010

Pelo ralo

pelo ralo (que não se vá)
a chuva derramada
a cada olho, pára uma gota
de aflição e gozo
que escorre
e de-leite
verte sobre meu ventre

sexta-feira, 20 de agosto de 2010

O que é? O que é?

Como começa uma história.
Minha bonança é contar os pedacinhos de esperança, inocência, medo, admiração... tudo mergulhado pela lente azul verde oceano dos meus olhos, que atlanticamente vc avistou... e nem precisou de luneta

Meu querido W,

Tem coisas que só te digo enquanto sinto tua respiração, toco teu peito, beijo suave teu pescoço e com minha coxa roço o dragão tatuado na tua...
Ou então... quando estamos tão distantes que só posso te imaginar, mas fecho os olhos, ouço Chopin e você está comigo. Segura minha mão, já roubou minha boca, ajeita meu pescoço, de leve que sou me levanta, me gira e me toma pra si. Teu corpo é quente e meu sangue gostou.
Desculpa se adoro te escrever quando estou assim... Bem advertiu o Rilke: "não escrevam quando estiverem com tesão" e "poesia não é bater punheta". Foi mais ou menos isso... Ah, não? O que é poesia, então?
Pra mim é brincadeira, é choque, é ritmo, é ruído, é cachoeira, é jorro, é gozo e é lama...
É porre, é dança, é 3 da madruga, é brother, é falo, é beijo na boca, é encaixar gostoso...
Desculpa, Pessoa, não sei ser melancólica, não pra sempre... Quando estou na roça, parto pra cima, escrevo da dor de quem me doeu pra fora, acerto as contas no fio da palavra escrita, minha única guia.
Querido, meu caminho vai juntar com o teu? Vai me olhar por baixo da epiderme? Vai deixar eu olhar por baixo da sua capa de superherói? O que é? E o que será?

terça-feira, 17 de agosto de 2010

Chantilly

Meu querido W,

Isso não dá certo. Escrever tomando café. Ainda mais se for o mocha. Abro o copo e começa...
Vem a inspiração, junto com o chantilly em espiral on the top. E o que já era derretido em mim se espalha. Então fico atraída pelo degradê do café com aquela espuma branca, rodopiando, pele clara e escura, eu e você. A língua na tampinha chega na doçura e vai até o sabor mais adstringente, gira da base dura até a ponta túrgida, melting the ice into cream. Súbito ranger de dentes, você me toma e me sorve. Viro árvore, daquelas com seiva e lagartixas a escapar. Abro meus braços, minha copa e você entra na minha sombra. A última gota de chocolate lá no fundo do copo é a primeira da chuva (de risos) a desatar...

Viu só? Meu tema cadê? Virou canção...
Próxima vez, peço sem chantilly... or with lots of it

Bj, sweetie

domingo, 15 de agosto de 2010

Defesa de tese

Meu querido W,

Sempre achei que a gente tem uma vida outra. Que não é secreta. Ela só não é dita em voz alta. E a melhor parte fica comprimida entre uma respiração e outra. Às vezes essas pequenas pílulas ganham fluidez vc chegou. Corri pros teus braços.
Assim...
Estou de frente pra ela. Sou da sua banca examinadora. Rules of engagement: o doutor mais jovem é o primeiro a arguir. Então começo: por que vc quer defender essa tese? Te perguntei: o que vc gosta em mim? Vc não quis A candidata não hesita em responder: quero aprender, diz com o olhar predador é o que mais gosto em vc É difícil, tenho que sobreviver sim, mas gostei demais desse trabalho e faria tudo de novo e suportaria tudo: teu peso, essa dor, essa delícia, por cada fio de cabelo meu desarrumando, emaranhado nos teus Discute esse resultado aqui, eu disse, os revisores do paper caçam pelos em ovo... do púbis. Seguro teu falo sério, se o n fosse grande, não haveria tanta oscilação em torno da média que beijo longamente... Vc é nuvem, aragem, floco de neve, perfume, tesão. Meu refrão.
A candidata: aprovada! Mas no que será que ela estava pensando?

E vc, baby?

Bj, te adoro

quinta-feira, 12 de agosto de 2010

Zumbido

quero estar por fora vestida
com o que tenho dentro
capturar a abelha
que vc colocou
no interior do vidro
- formol de pensamento
de todos os prazeres o pior
de todas as torturas a melhor
é esse zumbido
flechando o firmamento

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Quanta

quanto de luxúria
cabe num esmalte vinho
(do deus Baco)?
e no gemido que vem
da tua boca?

medir-se-ia
em teor alcoólico de embriaguez dos sentidos
em graus Celsius do calor da fricção
em decibéis dos urros abafados
em milímetros de sofreguidão para pontos precisos
que explodem corpos, quartos, cidades,
constelações


le jardin

j'ai envie de toi
je suis calme, puis je déraisonne
je coule, je m'étends
sur un trottoir
devant le jardin
je suis cultivée, mais pas assez
arrache-moi
je veux l'épine
que tu me percera

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

Festa no céu

Meu querido W,

Então teu corpo celeste caiu sobre o meu.
Meu ar se esgota, vai, célere.
Sufocar é suave, é riso, é arroz doce. É festa, vou voltando pra lá...
Com vc dentro de mim, lembrei da infância, e ainda muito excitada, carnaval, melzinho, vi teu olho pirata, ovomaltine, brigadeiro de lata, leite moça, êpa, essa sou eu...
Suada, colada com vc, minha mão gelada, chicabom, cometa de cauda, cigarrinho Pan, na tua pele tão macia, te esfrega. ("Fica!" A voz não sai...) Meu peitinho se aninha no teu. O último sopro, pra tua língua entrar...
Poxa, tossi... vc se despegou, respirei... (foi nessa ordem?)
Sobrevivi, mas quase preferia não.
Sossega, baby, te quero o amanhã já, mas posso esperar

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

To whom it may concern

To whom it may concern:
(that would be you, my love)

Affection from men
and loves of women
are different
although they might
slide together
and for a while
(in agony, in prayers, in rainbows)
in shivering thighs
in shallow breathing
in hot tubs
and used condoms

Ants, worms and mobs
may have your body
but shall you rest, linger and feast
over mine

segunda-feira, 2 de agosto de 2010

A cigana

Meu querido W,

A cigana passou. Por entre os carros, chegou (como você, por entre minhas pernas, meus argumentos, meus lábios). Pede meu olhar, trocado, mais do que esmola. Não dou.
Mas ao sorrir, um trejeito no canto da boca me cativou. Não os cabelos secos, as canelas grossas, as roupas, as roupas dela, um degradé de manchas (foi assim com você, que me capturou com o sorriso... e um certo terno costurado... quero tua ternura... então me rasgo). O sinal vai abrir... cigana, mostra esse pudor de novo... (E você, me dá seu gemido, aquele de um só instante espremido)
Abriu e ela sumiu. E de quem foi? Pra quem de amor ela se mostrou?
Tantos sorrisos pelo retrovisor, pela sarjeta, trazem de volta uma beleza de moça... Deu, deu seu presente (fluido quente como o que escorre entre minhas coxas) pra alguém? Deu tempo? E como saber?
Sweetie, me dei de presente pra você, e isso é mais forte que saber...

Bj, agora então sou tua