terça-feira, 29 de março de 2011

Before antes

Antes de eu nascer, vc vai me colher
(de colher)
Antes do sol
Do primeiro avião
Do berro
Do primeiro latido
Da primeira descarga
Da minha alma, só salva
só lavada, sua íntima
papel bíblia
e flor do asfalto

um beijo
como a ti mesmo

quinta-feira, 24 de março de 2011

Aguapé

tinha muito aguapé na minha roseira
tem muito espinho no meu caqui
meu amor não é de carreira
fica avião planador
dor e bagaceira
dia seguinte sou nem quem me vê
quem te viu, quem te quis
queria meus nos teus
olhos, abraços, quadris
e ainda quero
e não me sói no universo
ser feliz

terça-feira, 22 de março de 2011

margem de manobra

por onde vc anda ou sobrevoa ou sobrevive
tem uma margem pra chegar?
tem um abraço de mar
manobra, mão que
encosta, pra escalar?
subo o sentido, pra alcançar
é vc sou eu
e o desejo

quinta-feira, 17 de março de 2011

Baby sem-tempo

Meu querido W,

Acho q vc tá pilhado total! Super mega sem tempo...
Mas, olha, baby, o tempo é a aparência móvel da eternidade. Quem falou foi Platão. Então toda nossa experiência é ilusão.
Até eu te beijando, até vc me querendo, tirando minha roupa rápido, eu não falando nada, pra dar mais "tempo" de te curtir mais...
E depois termina, é um bem escasso. Mas é um bem. Talvez o real mesmo seja só esse bem, que é a vontade de estar junto. O afeto.
Entrei na filosofia pra isso, pra entender os afetos. Enquanto eu dizia isso ao professor, ele já se ria:
"- Vc... aquela cabeluda, que chegava atrasada, sentava no fundão e ficava perguntando...
- Hã... (baixei os olhos, bati a ponta do pé no chão) é, sou eu...
- Então vem pro curso da pós.
- ????
- E pode continuar perguntando..."
Então, se temos uma essência, ela é transitória, inconstante, como o afeto. Um movimento, uma possibilidade, nada concreto. Isso já foi Heidegger. Não sou objeto do real. Vc tb não. Só uma vontade de, um querer, um afeto, que te toca e depois se afasta.
Deu "tempo" p/ ler?? Não? Deixa eu dizer então pra vc, olhando pros teus lábios, e depois vc me beija, me amassa, se livra do resto da roupa e entra em mim como droga, acende meus recônditos, e eu viajo por 36, 48h... De novo, o tempo.
A cicatriz da existência?

Bj, te adoro

terça-feira, 15 de março de 2011

Razorade

Razorade
Use it to gaze
Into your own head
For children's sake
Wrap it up
in blood and waves
Leave it to the wolves
on bus stops
and school days

sábado, 12 de março de 2011

Lugar comum

Meu querido W,

A primeira vez a gente não esquece. A frase é um lugar comum. Será comum de corriqueiro ou de familiar? E por que repetimos? Precisamos voltar pra lá... será por que nos é familiar? Acho que não. Voltamos por que esquecemos algo...

Naquele dia vc não tinha esquecido de nada. Nem do terno, nem da camisa e nem dos sapatos e das meias. E eu... perdida... fora do lugar comum.
Pra disfarçar, comecei a catar brinquedinhos no chão.
Então... encontrei com os meus joelhos encostados no assoalho escuro, redondinhos, as coxas brancas saindo do shortinho. Achei bonito. Percebi q vc olhava pra mesma coisa. Ia gostando daquela mulher doce e submissa, sensual sem saber (virginal?), uma gueixa sem o treino e o kimono.Qual de nós gostava mais dela?
Entre o receio e o gosto recém adquirido pelo jogo, optei pelo último. Levantei ágil, virei de costas, caminhei até a estante, estiquei o corpo... Podia sentir teu olhar me encaixando, calcanhar, cavo dos joelhos, coxa e bumbum. Comecei a respirar fundo e podia gemer lá mesmo, encostada na parede, só desse olhar pousado de desejo.
Dali a instantes quando tua lingua me lambia em ondas, primeiro na boca e depois no sexo, foi tudo fácil, minhas pernas se abriam ao redor da tua cintura, tirei a blusa, teu pau me rasgava, teu peso e teus pelos a me afagar... Vou me afogar... Demorou, não, ficou rápido... tenho medo, mas quero vc demais, dói, entra mais fundo, me machuca, me abraça, sou tua... não sou de ninguém.
De onde foi que aquela mulher, de certezas, que virou menina e se tornou mulher, de nudezas (uma outra, uma qualquer)?

Voltei pra pegar o que eu tinha esquecido: 2 olhares e um par de joelhos

Um bj, baby

Maritaca

maritaca na manhã miúda
pia (de louça) aguda
aguada (vento e chuva), muda

sexta-feira, 11 de março de 2011

Pick me!

Meu querido W,

Vc abriu sua caixa postal. Entre tantos mails oferecendo coisas, pedindo oportunidades, cobrando deadlines, decidiu ler este. "Pick me!" cintilam as letrinhas em negrito... Elas balançam na sua frente... São só letras. Não pedem coisa alguma.
"Qual será a literatice da vez?", vc pensa, mas cede à curiosidade.
É, moço. Hoje não tem poemarmelada, (tem não, sinhô!), não tem microconto erótico, só tem eu pensando: "why did he pick me?". Ou deveria fazer a pergunta the other way around: "why did I pick him?" Whatever... maybe nobody chose anything. Não escolhi gostar assim. Mas quando vc veio já estava tudo lá. Então lembrei de quando vc me beija na testa depois de tremer e se jogar em mim, de gozar se despejando em mim, esse rio. O beijo quase fraterno serve pra cortar o tesão? Pra fechar o parêntese do amor físico? Um amor q só existe no contato... e na cicatriz. "Pronto, acabou, não foi nada..." "Nem doeu, baby", tento fingir indiferença. Não sou atriz, então vc sabe... q me faço desejo, me faço memória, tremo de medo, feliz, pequena, sensível, flor de jardim, perfumada e cintilante: "Pick me!"

Bj, te adoro