Meu querido W,
A cidade bate nosso coração. Como é o coração da madrugada? Terno ou sangrento (como dizia o Guilherme de Almeida)? Malandro ou nojento? E como está o coração de Lisboa?
5h: Frio na nuca e estremeço. Perto do Trianon, meninos na ativa... quem sabe o último cliente? Ninguém liga pro canto que pássaros automáticos insistem em fazer soar, apesar das cancelas dos estacionamentos matinais estarem quietas, as ruas vazias, com passos apertados, poças brilhantes e papéis de Halls rodopiando. Uma beleza de odalisca (desnuda e pra poucos espectadores). Um dos meninos dá uns pulinhos... de frio? Pudera, profissa, ele fica sem camisa, pra mostrar o peito sarado e a barriga tanquinho. Passamos mas ele mexe com a gente. O negócio era comigo: "Ô mina loira da bundinha!" (?!) Na conversa entremeada de susto sussurrado ("vambora, E.!") ele elogiou e pediu de brilho a ecstasy. Ganhou camisinha, Sonho de Valsa, convite pra expo de literatura, era o que eu tinha no bolso... Depois ele deduziu a partir do vermelho do meu rosto (vc veio da Augusta a pé) e pelo cheiro do cabelo (a balada é o Sar..., né?). Agradeceu com mais elogios ("fala sério com esse bocão, falta um pouco de peito mas o resto tá jóia hahaha!). Um gentleman.
Novos passos enxergam o ritmo, amanheceu. Automóveis, garis, carrinhos de bebê vão se ocupar do parque. Então, com o sol enxotando a madrugada, penso no mundo A, que ainda dorme (como eu, que estava adormecida) enquanto eu desvendo o lado B. Vou tirando peça por peça de blocos de cimento, asfalto, poeira, buzinas, janela de alumínio, anéis, meia, sutiã... fico só pele. Sou tua odalisca... brilho de outro mundo que vc penetra... de pele a pele, não somos tão diferentes... E eu gosto (me gustas tu) assim.
Bj, sweetie e boa sorte nos games
Nenhum comentário:
Postar um comentário