sábado, 17 de março de 2012

can you hear me, major tom?

hoje começo a sair daquele quarto, onde entrei com voce há 2 anos. hoje saio, hoje! mas deixo a porta aberta... vai saber! seguro morreu de velho. aliás ninguem morreu: nem eu, nem você. e nem minha inocência.

subia então as escadas de acrílico transparente iluminado, mas translúcida era minha alma. 36h depois, abria a cortina do box na UTI - a mesma luz. lá deveria estar o Sr. X, esperando minha visita matinal. abri com calma e ele não estava lá. não. no lugar, a cama de casal do quarto kitsch de motel, o quadro, e você me olhando: "aonde vc estava?" "aqui, meu amor". sempre.

sempre. que era pouco. mas vc chamava, eu ia. trânsito, angústia, celular sem sinal, modernidade. espera. tinha medo de tudo isso, e ia. a lingerie pra combinar com o quarto, e ia. depois, era eu quem pedia pra ir. o ministério da saúde adverte: tortura pode viciar.

e um corpo no outro estremece a alma. esquenta, arranha e brilha. eu tinha essa estrela doída e, quando nao acontecia, mandava pra sua caixa postal
"fica", mais um beijo, me abraça. inocencia.
"se cuida". so diz isso pra quem te quer bem, vc é tão sabida. preocupação.

então pra encurtar, saio agora... 3, 2, 1, go! can you hear me, major tom?
e já sonho com a Terra, de tão longe... zero gravity

fique bem, e com meu colar de estrelas, sem peso algum...

quarta-feira, 14 de março de 2012

feito assim diferente

se a gente é feito assim
diferente
o meu é achatado, o teu intumescente
eu, branca e você pintado,
camuflado, euquanto eu dizia tudo
ao estremecer

do dia com tua noite

ao me tocar
de roubados, de ilícitos,
de prensados
fiz uma história (você gozou em instantes)
pra ganhar do tempo, da ducha e do xixi
pra virar nuvem, arco e tempestade

rio abaixo, escovamos os dentes
você segue, eu sigo (e tenho medo)

se a gente é feito assim
divergente

quem?

poeta, eu? quem?
não nego, e nem pretendo
compreendo, pouco
de tudo, ares
ocos
fundos
pântanos
e sonho muros
de atravessar

sexta-feira, 9 de março de 2012

Filme de cinema

Meu querido W,

Te escrevo pra dizer nada em muitas palavras. Ou melhor, pra dizer do nada em conjugações e adjetivos. Os substantivos são conhecidos: distância, afazeres, rotina. O diáfano nada, enfim.
Entre a saudade e o nada... entre a tristeza e o nada. Prefiro escrever. É uma opinião pessoal. Sou pessoa, afinal.
Escrever pra manter o mistério. Pra não discursar sobre o que não tem explicação (aquela rêverie que nos assalta). Estive ali, respirei fundo ao me inclinar, ele me olhava assim.
Assim como?
Apressado. Doido pra fugir. Querendo alívio, mas fazendo uma pose, pra disfarçar, claro. Só me olhava quando eu não podia ver... Mas o lugar tinha muitos espelhos. Então por vezes vi seu olhar de estranheza... por que essa mulher? A culpa, depois da saciedade, do gozo, da posse, do choro. Por que chora essa mulher? "Fiz mal", ele pensa. Pro Nelson, os homens "fazem mal" às mulheres quando as possuem fisicamente, pois o desejo em cena é cru e próximo à violação. Fica difícil então realizar amor e tesão no mesmo ato. O sexo fica bipartido. Uma mulher para amar, mas a distância. Outras pra amar com os sentidos, a respiração. A carne, afinal. E essa cisma é brutal. Quando entendi isso, fiquei com pena. Pras mulheres é só delícia... Amor é entrega, desejo é se abrir, sexo é acolher. Tudo converge. Amo com facilidade o homem que desejo. Fim da pequena digressão. Pra onde olha esse homem? Converge seu estrabismo e percorre minhas curvas, para no sexo, levanta a saia devagar. Quero que ele me toque e sinta minha vontade. Na respiração e na umidade. Que me segure pra que eu seja sua. Completamente. De todas as maneiras que as peles tem de se enroscar. Das misturas virarem espuma, do ritmo virar combustão. Do calor e depois dos sopros... A alma sai atarantada. Fim do pequeno filme.


o nada, E depois. O quinto círculo do inferno.
Ah! E o Rilke não tinha razão... Dá pra viver sem escrever "na hora mais sombria da madrugada"... Dá, sim. Mas é chato.

Bj, te adoro

quinta-feira, 8 de março de 2012